Descubra as Diferenças: o discurso inaugural de Obama e de Trump


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Os discursos podem distinguir-se pelas ideias que veiculam. Mas só se tornam memoráveis quando são eloquentes. 

Os discursos inaugurais da presidência de Obama, em 2009, e Trump, em 2017, podem parecer semelhantes mas, na verdade, são muito diferentes entre si a dois níveis: na Invenção retórica (conteúdo); e na Acção retórica (no desempenho oratório). 
Dois presidentes dos Estados Unidos da América, duas oratórias, dois discursos contrastantes. Façamos um exercício de análise e descubramos as (muitas) diferenças entre o orador Obama e o orador Trump. 


Invenção

No primeiro discurso enquanto recém-eleito Presidente, Obama fala de cooperação internacional e da necessidade de afirmar a diplomacia norte-americana junto do mundo. O seu tom é o de abertura às adversidades que afligem o mundo e inclui a promessa implícita dos Estados Unidos da América de participarem na resolução desses problemas.
Por seu turno, Trump apresenta um discurso marcado, não pela extroversão, mas pela introversão dos EUA. A visão apresentada é uma em que a América coloca os seus interesses à frente dos interesses do mundo e da comunidade internacional (algo que se viria a confirmar meses depois com  a saída dos EUA do Acordo de Paris sobre as alterações climáticas).

Existem temas que não poderiam deixar de constar neste tipo de discurso, tais como os valores americanos, os desafios da nação ou a globalização. Assim, existem semelhanças na selecção dos tópicos.
Contudo, a forma como cada um os apresenta, expressa a sua importância e propõe um rumo para os enfrentar é bastante dissemelhante.

           Valores Americanos

Obama: But those values upon which our success depends – honesty and hard work, courage and fair play, tolerance and curiosity, loyalty and patriotism – these things are old.  These things are true. They have been the quiet force of progress throughout our history.

Trump: At the bedrock of our politics will be a total allegiance to the United States of America, and through our loyalty to our country, we will rediscover our loyalty to each other. When you open your heart to patriotism, there is no room for prejudice.



           Desafios da Nação

Obama: Our economy is badly weakened, a consequence of greed and irresponsibility on the part of some, but also our collective failure to make hard choices and prepare the nation for a new age.  Homes have been lost, jobs shed, businesses shuttered.  Our health care is too costly, our schools fail too many – and each day brings further evidence that the ways we use energy strengthen our adversaries and threaten our planet.

Trump: We’ve made other countries rich while the wealth, strength, and confidence of our country has disappeared over the horizon. One by one, the factories shuttered and left our shores, with not even a thought about the millions upon millions of American workers left behind. The wealth of our middle class has been ripped from their homes and then redistributed across the entire world.



           Globalização


Obama: To the people of poor nations, we pledge to work alongside you to make your farms flourish and let clean waters flow; to nourish starved bodies and feed hungry minds.  And to those nations like ours that enjoy relative plenty, we say we can no longer afford indifference to the suffering outside our borders, nor can we consume the world's resources without regard to effect.  For the world has changed, and we must change with it.

Trump: We will follow two simple rules: Buy American and Hire American. We will seek friendship and goodwill with the nations of the world – but we do so with the understanding that it is the right of all nations to put their own interests first.



Pela elegância, sensatez dos valores, articulação dos temas e enfatização dos ideais morais, o discurso inaugural de Obama aparenta possuir uma Invenção superior à de Trump.

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Acção 

Trump profere o seu discurso inaugural da mesma maneira que falava perante as câmaras de televisão do reality-show "The Apprentice". A sua voz revela autoridade e os seus gestos confirmam o seu estilo impositivo. Porém, a Acção é retoricamente mais pobre porque se mostra de forma unidimensional. Trump acaba o discurso exactamente da mesma forma que começa em termos de entoação, volume, tom, ritmo ou linguagem corporal. Além disso, aquele estilo martelado com que pontua as palavras pode ser excessivo passados 30 minutos. Ex: You--- Will Never--- be ignored (...) enquanto a mão direita, de dedo indicador esticado, quase que bate no palanque.
O auditório sente mais dificuldade em relacionar-se com este tipo de desempenho oratório (basta reparar no plano de televisão que foca a expressão impassível e algo apática de algumas pessoas presentes).

Obama é o oposto: a sua exposição é harmoniosa e bem pontuada. As pausas enfatizam as suas ideias e a sua voz -grave, tranquila mas revelando dinamismo- é uma ponte segura para as suas ideias progressivas. Algo que sobressai é a constante passagem do olhar de uma ponta a outra do auditório: Obama dirige-se a todos. Não discursa apenas formalmente e cumprir o protocolo. Ele aproveita a ocasião para comunicar com cada uma das milhares de pessoas ali presentes (e àquelas que o seguem através dos Media). Ele não fala para a câmara nem para os altos dignatários. Ele fala, sim, para os cidadãos norte-americanos sem se esquecer de fazer várias alusões aos cidadãos internacionais. 
Neste sentido, quer a Invenção, quer a Acção de Obama parecem mais inclusivas e universais. A Acção realiza a abertura e cooperação que já está pressuposta na Invenção.


Pelo desempenho oratório ser mais equilibrado, diversificado, a Acção de Obama tende a apelar a mais pessoas do que a de Trump. Não significa que Trump não tenha apresentado bem as suas ideias. Quer, antes, dizer que algumas características do estilo de Trump (que tão bem se adequam aos ecrãs de televisão) têm maior dificuldade em se afirmar nos palanques políticos.



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Veja o Video comparativo dos dois oradores no USA Today

Repare na Invenção e na Acção. Quantas diferenças identificou?



Retoricamente, bons discursos!


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