Porque é a escolha das palavras tão decisiva num discurso?


"Diga bom dia com Mokambo, Mokambo"

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Assim começa o anúncio que muitos oradores (sobretudo aqueles com mais de 25 anos) se lembrarão de escutar na televisão. O jingle ficou para a posteridade bem como a epizeuxe (a mais elementar das figuras de estilo de repetição): "gosto bom, bom, bom, bom, bom”. Assim se ligava o"bom" dia e o "bom" gosto da mistura de cereais e café.


Porque será que, passados mais de 30 anos, ainda nos recordamos deste anúncio? 
Entre os vários motivos relevantes, destacamos aquele que é mais importante do ponto de vista da retórica: a escolha de palavras.

Com efeito, os grandes oradores estudam cuidadosamente as melhores palavras para obterem o efeito desejado. E esse criteriosos labor linguístico e estilístico dá frutos quando os discursos se tornam memoráveis, capazes de habitar o imaginário colectivo. Quem se esquecerá da famosa afirmação "Eu tenho um sonho" de Martin Luther King, repetida cirurgicamente ao longo da parte final do seu discurso de 1963, proferido no Lincoln Memorial, em Washington?

A escolha selectiva das palavras, do seu encadeamento e da sua utilização figurada é uma tarefa basilar de qualquer orador que pretende que o seu discurso se torne inesquecível. 

Existem 3 razões principais que fazem da linguagem um aspecto determinante de uma comunicação em público: as palavras aumentam a clareza do discurso; estimulam a identificação entre auditório e orador; e produzem reacções emotivas.


Image result for word paintingConferem Clareza

Costuma-se dizer que escrever é pintar com palavras. De facto, quando usada com mestria, a linguagem pinta imagens na mente do auditório. Cada palavra é uma pincelada que confere um tom e uma textura à experiência que o orador pretende comunicar.

Acrescentamos clareza ao discurso sempre que conseguimos que as palavras- concretas, descritivas, avaliativas, ajuizadoras - desfaçam a névoa de confusão e ambiguidade que todos os auditórios possuem no início da comunicação.
As palavras tornam concreto aquilo que é abstracto (as ideias do orador) estabelecendo a ponte de ligação entre a mente do orador e a mente dos membros do auditório. É assim que elas, ao darem cor ao discurso, oferecem uma perspetiva clara daquilo que se pretende transmitir. 

No início do Livro III do seu tratado intitulado Retórica, Aristóteles lembra que a linguagem utilizada pode aparentemente ter uma importância pequena mas que essa importância é real: a maneira pela qual alguma coisa é dita afecta efectivamente a sua inteligibilidade para os outros.

O que é mais evocativo para si: alguém dizer"um belo dia", ou descrever "um dia luminoso, solarengo em que o sol aquece a réstia de frio que permanece"?

Promovem a Identificação


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Aquilo que diz ao seu auditório, irá fazê-los aproximar ou afastar-se daquilo que lhe apresenta à consideração.
Discursar em público é, antes de mais, comunicar com pessoas. Os melhores oradores sabem criar um sentimento de comunhão e ligação. E as palavras são essenciais para que o auditório se possa identificar com o orador, para que as pessoas se juntem e se associem numa causa comum.
Os melhores oradores não se distanciam do auditório: antes, falem a sua língua. Comunicam nos seus termos, utilizam vocabulário familiar e fazem escolhas lexicais que promovem o "nós". Repare que muitos discursos não falam num "tu" mas num nós, evocam termos como "família", "união" e solidariedade".
A selecção criteriosa das palavras promove, assim, a inclusão do auditório nos objectivos do orador.
A França é excecional, mas nós somos muito melhores”. Foi assim que o Presidente da República, em 2016, apelou ao sentimento nacionalista e falando de um "nós" uniu todos os portugueses em torno da selecção portuguesa de futebol, independentemente da sua cor clubística, ideologia ou idade, independentemente de serem cidadãos residentes no país ou emigrantes.

Geram Emoção

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"As emoções são todos aqueles sentimentos que transformam o homem ao afectarem o seu juízo". É assim que Aristóteles, em Retórica, começa uma longa exposição sobre o papel das emoções para o orador.
Ora uma das formas de despertar as emoções que afetarão o juízo do auditório é precisamente um aturado uso da linguagem verbal.
As palavras não apenas geram emoções (ex: ouvir dizer Papá pela primeira vez), como acentuam estados emocionais (ex: é o melhor dia da minha vida). Por outras palavras, as palavras ajudam o orador  a regular e influenciar o estado emocional do auditório com vista à persuasão.
O poder emocional das palavras é ilimitado. Palavras carregadas de emoção podem ser decisivas para fazer o auditório a assumir uma decisão. Mas podem igualmente despertar sentimentos de aventura, orgulho, curiosidade, medo ou simpatia. Quantas rifas  já não comprou simplesmente porque cedeu à simpatia dos escuteiros?
Os políticos usam frequentemente a emoção nos seus discursos através das palavras. Pense-se no discurso do Presidente Norte-Americano Jonh F. Kennedy, "The Decision to go to the Moon", em 1961: "[Nós] escolhemos ir à Lua. Escolhemos ir à Lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque elas sejam fáceis, mas porque são difíceis, porque o objectivo servirá para organizar e medir o melhor das nossa energia e capacidade". Aqui Kennedy instila o orgulho nacional enquanto valoriza a competência do povo norte-americano. 



Pensar atentamente na linguagem que utiliza e escolher selectivamente as palavras irá dar aos seus discursos três efeitos: ser claro, ser apropriável pelo auditório e ser emotivo.

Porque a escolha das palavras é tão importante?
Simplesmente, porque clarifica as suas ideias, torna-as passíveis de serem reconhecidas e inclusivas, aumentando o potencial emotivo da sua mensagem.




Boas Comunicações!

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